Monday, October 25, 2004

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Outubro

O mês de Outubro tem transcorrido sem muitas novidades interessantes e sem internet na minha casa, então não tenho escrito nada nesta página (do contrário, teria de fazê-lo no departamento e doravante niguém me levaria a sério... alguém leva a sério quem tem um blog?!)
A falta de internet é devida à pavorosa British Telecom, que faz a Telemar parecer coisa de Primeiro Mundo. Pra começar, o tempo médio de espera ao telefone é de dez minutos, e freqüentemente eles pedem pra vc deixar o seu telefone e prometem ligar de volta nas próximas horas. Isso quando se está tentando contratar um serviço; imagine como deve ser para fazer uma queixa ou pedir um conserto.

Embora ainda esteja enganando bastante, pouco a pouco começo a entrar em ritmo de trabalho, assistindo a seminários e lendo os 146153751578 livros que todo mundo recomenda; outros alunos, professores, o meu orientador, cada um tem uma sugestão por dia de alguma coisa de 450 páginas pra ler. Acho que é a velha história da pimenta nos olhos dos outros.
Aliás, falando no meu orientador, vc pode ver a carinha simpática dele aqui:
http://www.ma.ic.ac.uk/~skdona/
O nome dele é Simon Donaldson e ele é bem amigável, embora seja bastante ocupado. A moral da história é que só dá pra falar com ele marcando hora, então eu já marquei hora uma vez por semana, todas as semanas até o final do ano, hehe!

Outro detalhe é que eu moro do outro lado do Hyde Park; isso é bom de manhã, porque eu venho pro departamento pedalando velozmente pela bucólica imensidão verde-outonal, observando a magia dos corvos, patos, e cisnes que lá vivem, bem como trazendo desespero às mães de crianças pequenas e turistas japoneses, ambas categorias que têm medo de bicicletas. De noite, no entanto, é menos interessante, porque a polícia fecha o parque na hora em que escurece, seja isso lá que horas fôr, e quando isso acontece eu tenho que dar a volta toda e isso não é divertido considerando que eu estou cansado de ter trabalhado (necessariamente) até tarde.
Por isso mesmo vou sair correndo agora!

Friday, October 01, 2004

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O que eu fiz no verão passado (além de viajar)

O que eu fiz além de viajar? Viajar, ora!
Voltando de Praga eu tive uma noite pra me recompor, refazer as malas e partir pra um encontro de Aikido de cinco dias em Telford, no interior do interior do interior da Inlgaterra. Foi um evento nacional, com umas poucas centenas de participantes, e foi bem legal. Um professor japonês convidado tinha acabado de vir do Brasil, e como eu estava lá, sou brasileiro e falo japonês aproveitei pra não falar com ele nenhuma vez.

Voltei numa quinta-feira de tarde, esvaziei os quimonos sujos no chão do quarto, refiz a mala de roupas, incluí novamente Caroline na bagagem e parti para Edimburgo, onde acontece um dos maiores festivais anuais de teatro do mundo. Lá assistimos a algumas peças legais, algumas mais ou menos, uma que foi a pior experiência com o mundo artístico da minha vida (um cara contando episódios sem graça de sua vida amorosa e fazendo trocadilhos para uma pletéia de três, eu disse TRÊS, pessoas). A real é que não dá pra escolher o que se vai ver, porque o catálogo tem literalmente centenas de atrações diariamente (são mais de cento e cinqüenta SALAS de teatro pela cidade) e o jeito é entrar no que estiver pra começar na hora que vc está passando na frente.
Ficamos tb deslumbrados com os escoceses, esse povo ruivo, sardento, que gosta de gado, não gosta dos ingleses, gosta do William Wallace sem gostar do Mel Gibson, possui sua própria nota de libra pra não ter que usar notas inglesas e come Haggis - a coisa mais repulsiva jamais realizada a partir de boi, carneiro ou lixo. Confira a receita:

1 sheep's paunch
heart, lung and liver of sheep
salt
white pepper
hot red pepper (cayenne preferred)
1 pound beef suet
1/8 tsp. nutmeg (or less to taste)
2 onions, chopped
6 oz. oatmeal, toasted
3/4 pint beef stock

Irgh!

Voltando de Edimburgo na segunda feira de manhã, trquei as roupas na mochila outra vez e parti para Plymouth, cidade de onde peregrinos e piratas partiam para o Novo Mundo, para participar da BUSSTEPP (British Universities Summer School in Theoretical Elementary Particle Physics... ufa!). Lá eu conheci vários estudantes de doutorado legais e tb aprendi um monte de coisas de física. E foi de graça! Eu mandei um email pedindo apoio financeiro e eles me deram 100%... foi mais barato do que ficar em casa.

Claro que nem toda mamata dura pra sempre e em Setembro eu tive que voltar pra Cambridge e retomar o meu pobre relegado projeto de verão em computação quântica (!) ('computação quântica'(!!) é uma dessas expressões que sempre são seguidas de um ou mais pontos de exclamação.) Eu passei então duas semanas fingindo que estava fazendo isso enquanto sorrateiramente procurava apartamento em Londres. Foi muito difícil e eu cheguei bem perto de entrar em algumas boas roubadas, mas finalmente consegui um lugar excelente, pertinho do Hyde park e do Imperial College (na verdade, do outro lado do parque, então posso caminhar bucolicamente e de graça para o departamento todos os dias.) Divido com dois 'estadunidenses' de nomes Eddie e Mijin (menina). Eu conversei com eles e parecem ser pessoas esclarecidas então acho que vai dar certo. E o preço, bem, foi a melhor parte!

Mas a moral desse verão é que nada é pra sempre então no dia 18 último eu larguei os meus afazeres britânicos e vim pra Pisa, Itália (daa), participar de (bem, digamos 'ficar acordado durante') uma conferência de Geometria Diferencial e Topologia, promovida pelo meu ex-futuro orientador no Imperial. Novamente apliquei o golpe de mandar o email pedindo dinheiro e funcionou! Então estou até o presente momento em Pisa, com tudo pago, inclusive as refeições na metida a besta Scuola Normale Superiore, escrevendo no blog em vez de trabalhar.
Como volto pra Inglaterra hoje, e não sei o que vai acontecer amanhã, acho que o relato por enquanto tem que parar por aqui. Para gáudio de minha mãe e vó, sempre aflitas com minha alimentação, vou deixá-los com o modelo de cardápio do refeitório aqui da escola (que pra mim é de graça):

Pane:
Pão e manteiga a gosto.

Primi Piatti:
Pelo menos duas (às vezes três) qualidades de massa/risoto a gosto.
hoje tinha: risoto ao funghi; nhoque à bolonhesa.

Secondi Piatti:
Um a escolher entre: presunto de Parma com melão, mussarela de búfala, e mais duas ou três opções de carne.
hoje tinha: camarões e lulas fritos; filé de frango; bife.

Contorni:
Quaisquer itens entre salada de alface, salada de tomate, duas qualidades de queijo, batatinhas fritas, cenoura cozida, vagens ou feijão.

Bebidas:
Qualquer quantidade de água mineral com ou sem gás, cerveja ou vinho (!).

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Praga (cont.)

Claro que a cidade em si, coitada, é bem legalzinha.
Descontados os horrores já descritos, valeu visitar o centro histórico, que cabe num único quadradinho do mapa e pode ser facilmente percorrido a pé, e o Castelo de Praga, que ainda é a sede do governo.

A principal atração do centro a meu ver é o bairro judeu, povoado por muitos milhares de turistas e menos de quinhentos judeus; lá encontram-se cinco sinagogas caras de entrar e sem graça. Há tb um museu do judaísmo, que é legal, porém com um passado macabro (como parece ser a regra naquela região): foi originalmente estabelecido pelos nazistas para documentar um 'povo em extinção'... baixo astral...
Tem tb o cemitério judaico, que é tão antigo (deve ter uns mil anos) que ficou sem espaço ao longo dos séculos e os túmulos se foram empilhando em camadas sucessivas! Até hoje o muro já teve que ser aumentado três vezes pra dar conta de sete camadas, com mais de cem mil túmulos! E o melhor: aberto a visitação das 10 às 18 por apenas 5 euros ou 12 se vc comprar tickets tb pro museu e pras sinagogas, que aí sai com um descontinho.

Pra cumprir promessa feita em Budapeste, fomos tb ao Museu do Comunismo. Pra quem estiver procurando, chegar lá em bem fácil: fica na rua Na Prikope, número 10, segundo andar (em cima do McDonald's), ao lado do cassino. O museu, que naturalmente é particular, exibe toda sorte de cacarecos dos tempos do antigo regime, incluindo sensacionais produtos de marca única do tipo 'del pueblo' em uma reconstituição de lojinha típica. Na sala de aula, destaque para títulos de literatura infantil como 'os tanques que nos salvaram' (não, eu não inventei isso! eu inclusive confirmei a tradução com a funcionária do museu) e para as roupinhas de marinheiro com lenço vermelho no pescoço. Tudo animado pela trilha sonora de fundo, composta por trechos de discursos (políticos) memoráveis e canções exaltadas interpretadas por um coro de proletárias.

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Em retrospecto, acho que Praga está a tornar-se a nova Paris (prisma pelo qual se entende tb o mau humor dos tchecos com os turistas). Pense comigo, turismo em Paris já está tão massificado que hoje em dia qualquer suburbano tem um vizinho que já foi. Pra onde então vão correr todos os intelectualóides e esnobes do globo, em sua busca pela perfeição estética, séculos de sabedoria e sobretudo distinção da plebe? Praga, ou Praha (corrigirão estes), é a resposta. O sujeito que já esteve em Praga é imediatamente promovido a erudito, suma autoridade em arquitetura, em história e em todos os paradoxos da hermenêutica contemporânea; não importa quão imbecil seja, contanto que demonstre um sofisticado deslumbramento com a experiência. Como bem retrataram uns americanos com quem conversei: "Prague is beautiful, it's great, amazing!"