Friday, October 01, 2004

Praga (cont.)

Claro que a cidade em si, coitada, é bem legalzinha.
Descontados os horrores já descritos, valeu visitar o centro histórico, que cabe num único quadradinho do mapa e pode ser facilmente percorrido a pé, e o Castelo de Praga, que ainda é a sede do governo.

A principal atração do centro a meu ver é o bairro judeu, povoado por muitos milhares de turistas e menos de quinhentos judeus; lá encontram-se cinco sinagogas caras de entrar e sem graça. Há tb um museu do judaísmo, que é legal, porém com um passado macabro (como parece ser a regra naquela região): foi originalmente estabelecido pelos nazistas para documentar um 'povo em extinção'... baixo astral...
Tem tb o cemitério judaico, que é tão antigo (deve ter uns mil anos) que ficou sem espaço ao longo dos séculos e os túmulos se foram empilhando em camadas sucessivas! Até hoje o muro já teve que ser aumentado três vezes pra dar conta de sete camadas, com mais de cem mil túmulos! E o melhor: aberto a visitação das 10 às 18 por apenas 5 euros ou 12 se vc comprar tickets tb pro museu e pras sinagogas, que aí sai com um descontinho.

Pra cumprir promessa feita em Budapeste, fomos tb ao Museu do Comunismo. Pra quem estiver procurando, chegar lá em bem fácil: fica na rua Na Prikope, número 10, segundo andar (em cima do McDonald's), ao lado do cassino. O museu, que naturalmente é particular, exibe toda sorte de cacarecos dos tempos do antigo regime, incluindo sensacionais produtos de marca única do tipo 'del pueblo' em uma reconstituição de lojinha típica. Na sala de aula, destaque para títulos de literatura infantil como 'os tanques que nos salvaram' (não, eu não inventei isso! eu inclusive confirmei a tradução com a funcionária do museu) e para as roupinhas de marinheiro com lenço vermelho no pescoço. Tudo animado pela trilha sonora de fundo, composta por trechos de discursos (políticos) memoráveis e canções exaltadas interpretadas por um coro de proletárias.

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Em retrospecto, acho que Praga está a tornar-se a nova Paris (prisma pelo qual se entende tb o mau humor dos tchecos com os turistas). Pense comigo, turismo em Paris já está tão massificado que hoje em dia qualquer suburbano tem um vizinho que já foi. Pra onde então vão correr todos os intelectualóides e esnobes do globo, em sua busca pela perfeição estética, séculos de sabedoria e sobretudo distinção da plebe? Praga, ou Praha (corrigirão estes), é a resposta. O sujeito que já esteve em Praga é imediatamente promovido a erudito, suma autoridade em arquitetura, em história e em todos os paradoxos da hermenêutica contemporânea; não importa quão imbecil seja, contanto que demonstre um sofisticado deslumbramento com a experiência. Como bem retrataram uns americanos com quem conversei: "Prague is beautiful, it's great, amazing!"

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