Chinês
Motivado por umas perguntas do meu pai, resolvi escrever sobre Chinês. Sim, o idioma. Pode ser uma surpresa pra alguns (ou melhor, apenas pros imprestáveis que não vêm lendo este blog regularmente) que eu tenha feito um curso de Mandarin no ano passado, enquanto estava em Cambridge. Se vc acha que isso é sinal de minha loucura, provavelmente está certo, mas era de graça, eu não ia deixar passar né?
O curso chamava-se Introdução ao Chinês para cientistas, e era promovido por uma fundação particular (Pressland Fund) que tem relações promíscuas e mal esclarecidas com o Centro de Idiomas da Universidade de Cambridge. Pra minha surpresa, dos vinte alunos inscritos mais ou menos um terço eram chineses (ou adjacentes, como taiwaneses, etc.), que falavam outras línguas (como o Cantonês) e queriam aprender a língua oficial!
Foi aí que eu vim a saber que na China existem oito línguas oficiais e quarenta e nove não-oficiais (eu disse línguas, não falemos de dialetos). Descobri também que os próprios chineses de outras regiões acham dificílimo o sistema tonal do Mandarin (a tonalidade com que vc pronuncia um fonema altera completamente o significado), e em muitos casos estão longe de serem fluentes, apesar de esta ser a principal língua do país. Quando os sotaques regionais entram em cena, então, há espaço pra toda sorte de ambigüidades e dificuldades de comunicação, que eles mal ou bem conseguem contornar de algum jeito chinês esquisito que eu não imagino qual seja.
Como exemplo pitoresco, saiba que em Shanghai a língua regional é o Wu; quando um falante nativo de Wu fala Mandarin, o seu sotaque faz com que os verbos "comprar" e "vender" soem exatamente iguais. Parece confuso? Agora multiplique tudo isso pelo fato de Shanghai ser o principal centro comercial da China; e vá entender como isso pode dar certo.
Por outro lado, diga-se em sua defesa que gramaticalmente o Mandarin é muito fácil; motivo pelo qual com um curso introdutório de dez aulas e um dicionário já dá pra sair falando um monte de coisas. Por exemplo, não há conjugação nem pessoa de verbo, nem artigo, nem plural, nem nenhum tipo de demarcador de função sintática (como as declinações do Alemão) ou regra de concordância. Na prática você sai falando direto "eu" + "ir" + "escola" + "amanhã" e vai daí. Claro que toda essa simplicidade é compensada pela escrita altamente enigmática (ajuda se vc souber Japonês ou Coreano, mas não muito!), que um ocidental costuma demorar a vida toda pra aprender. Os próprios chineses reconhecem a hermeticidade do sistema; aliás, num esforço de revolucionário "deselitizar" o idioma e expurgar os vícios burgueses, os camaradas têm encorajado historicamente certas alternativas, como o uso do alfabeto ocidental (sistema pin-yin) ou a simplificação dos ideogramas (isto é, eliminação dos rabisquinhos "menos importantes" pra ficar mais fácil de aprender uma letra). A intenção é boa, mas claro que no fim das contas a língua continua sendo elemento de elitização, porque, na hora do vamuvê, vagabundo só respeita mesmo quem sabe Mandarin sem sotaque e lê e escreve no tradicional.
Daqui a 20 anos quando uma multinacional chinesa comprar a empresa/ universidade/ quiosque/ carrocinha de pipoca onde vc trabalha, trate de lembrar de tudo isso para não ofender o seu honorável novo patrão, o Sr. Cheng.
Monday, January 31, 2005
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