O Donaldson, o CEMO e a borboleta
Andando pelo Rio de Janeiro nesse verão e levado por livre e espontânea pressão a examinar vitrines e mostruários de ambulantes, cheguei a pelo menos uma conclusão: as borboletas estão na moda. Seja em estampas e bijuterias ou em outras modalidades de frescura como MSN messenger - quiçá até no bicho? - só está dando borboleta.
Como sou matemático, essa reflexão remeteu-me de imediato à popular parábola da borboleta que bate suas asas, causa um tsunami na Ásia e depois acorda como homem, sem saber se estava antes apenas sonhando que era borboleta ou se na realidade é boiola mesmo... ou alguma coisa que vai por aí, agora não me lembro direito da história. O importante é que tinha a ver com o acaso e a realidade.
Vejamos agora o meu exemplo: cá estou morando nessa cidade congelada e mal-quista por Bin Laden, estudando no Imperial College com esse tal de Professor Donaldson (um dos maiores matemáticos do Mundo)... em grande parte por acaso. Pra começar, eu nem pretendia candidatar-me ao IC no ano passado (eu ainda achava que queria ficar em Cambridge), acabei me inscrevendo por desencargo de consciência... Embora naquele momento eu não tivesse como prever, essa foi uma boa decisão pois, dada a combinação final das minhas notas, disponibilidade de bolsa e projeto de pesquisa, o Imperial acabou sendo o único lugar pra onde eu pude vir. E de início eu nem ia trabalhar com o Donaldson! Aconteceu que o cara que me chamou (S. Salamon, que também é muio bom, mas não é tão famoso) acabou tendo que ir embora um mês antes do início do curso e me transferiu pra esse amigo dele.
Em resumo, nada saiu como eu tinha planejado, mas as coisas deram um jeito de dar certo mesmo assim... Claro que, daqui pra frente, eu vou ter que arcar com o alto nível da roubada em que eu me meti e que se eu me sair bem então parabens pra mim, mas até o momento tudo que deu certo foi principalmente por acaso.
Mudando de assunto (ou não: como já terão percebido, sempre que eu finjo mudar de assunto no mesmo post é só pra apresentar engenhosamente um outro ângulo do mesmo tema... mas não conte a si mesmo pra não estragar o efeito), também no Rio dei-me conta de como está difícil as pessoas se encontrarem. Todo mundo anda tão ocupado estudando, trabalhando ou embananado a própria vida (ou sendo explorado pelo neoliberalismo, como queiram) que mal sobra tempo pra estar ver os amigos. Cada um vive dizendo "qualquer dia desses tenho que ligar pra fulano", e os grandes grupos de 'antigamente' só se reúnem mesmo quando é aniversário ou velório de alguém.
No CEMO, porém, tudo é diferente! O Centro de Entretenimento Marquês de Olinda é o simpático apartamento dos meus amigos Rémy e Eduardo (não, ainda não é aqui que entra a história da borboleta), onde você encontra a qualquer hora do dia ou da noite alguns dos piores bandidos do Oeste - e às vezes até algum comunista - falando bobagem, recuperando-se de (ou adquirindo) alguma ressaca ou jogando RPG, video-game e WAR II. Pra mim é uma experiência curiosa encontrar no mesmo lugar amigos que eu conheci pelos mais variados motivos e em diferentes momentos da vida reunidos regularmente, sem precisar ser aniversário nem formatura de ninguém; sobretudo é uma grande sorte, dado o pouco tempo que eu tenho pra curtir a todos.
Agora vem a minha reflexão, sempre egocêntrica: Eduardo e Rémy conheceram-se porque já eram antes, individualmente, meus amigos. Se não fosse uma peculiar combinação de decisões e coincidências (como eu mudar de escola e cair justamente na turma do Rémy) cujas conseqüências à época não se poderiam prever ou mesmo imaginar, uma coisa legal como o CEMO hoje provavelmente não existiria. Borboleta, sacaram?
Só lamento que os poderes de longo alcance do bater de asas da borboleta não tenham ainda arrumado solução para o Atlântico que separa as duas partes desse texto.
Monday, January 24, 2005
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