Thursday, February 24, 2005

Ich bin kein Berliner

No último fim de semana fui a Berlim com um pessoal de Cambridge, a convite do nosso amigo Friedel, que tem cara de maluco (ele é aluno do Stephen Hawking) mas é gente boa.
Saí daqui às três da manhã de sábado pra pegar o vôo Ryanair baratinho, encontrei o resto do grupo no aeroporto, fui dormindo no avião e chegamos a Berlim por volta das nove da manhã. O frio ainda não estava totalmente insuportável àquela hora, ou então eu ainda estava quentinho do avião e não percebi. O fato é que durante a tarde a gente passeou pela cidade e estava congelando. O Friedel ainda teve a feliz idéia de fazer fila pra visitar o prédio do Parlamento (o Bundestag), por quarenta minutos, do lado de fora, no vento. O prédio ficou legal depois da reforma e agora tem uma grande redoma de vidro por cima, de onde as pessoas comuns podem observar os deputados lá embaixo. Eu perguntei ao Friedel se tb podia batucar no vidro ou vaiar; ele pareceu assustado por uns instantes mas quando entendeu que era brincadeira disse que pra isso tem galerias específicas lá dentro. Tudo muito organizado.
Eu achei a cidade bem feia, mas tb muito interessante. Tudo lá parece em construção, parece uma grande bagunça que os alemães ainda não conseguiram arrumar direito daquele jeito neurótico deles. No bairro em q o Friedel mora, por exemplo, muitos prédios têm marcas de splashes de tinta nas fachadas; ele explicou com naturalidade que quando os prédios foram repintados as pessoas da vizinhança saíram na rua jogando sacos com tinta pra "redecorar" as fachadas, pra que ficasse mais pessoal e aconchegante.
Vale lembrar que antes da Reunificação Berlim era bem diferente mesmo do resto da Alemanha; além de ter regime jurídico próprio influenciado pelos EUAmericanos, Ingleses e Franceses (os Soviéticos "devolveram" a parte deles para a RDA), os moradores da cidade eram dispensados de serviço militar por razões diplomáticas (além do mais, de que adiantaria sabendo que tinha um milhão de soldados do lado oriental?) e, como os "bacanas" não tivessem lá muito interesse de se instalarem naquela confusão, os preços de moradia eram bem mais baixos. Resultado dos dois últimos fatos: um monte de artistas, malucos, excluídos, doidões, alternativos e inconformados em geral do país inteiro acabaram convergindo pra lá. Por isso o clima mais informal e tumultuado, creio.

No fim do sábado tivemos uma merecida parada numa lanchonete especializada em salsichas (mmm...) e comemos aos montes. E como nem tudo são flores no inverno alemão, eu acordei no meio da noite com uma combinação de crise de gripe e indigestão e tive de chamar a mãe do Friedel (Frau Epple... please wake up - foi péssimo!) pra tomar remédio. Não suficiente, continuei sentindo enjôo durante toda a noite, voltando com náuseas ao banheiro várias vezes, até que acabei dormindo lá no banheiro mesmo (!). No dia seguinte acordei tão mal que nem conseguia me mexer, e com 38,5 de febre. Passei o belo domingo de inverno prussiano deitado na cama comendo banana amassada e arroz empapado com a Caroline fazendo colherzinha, enquanto o resto do pessoal foi passear.
Pra coroar, comecei a sentir uma dor no ouvido lancinante e tivemos de ir ao posto médico. Aí eu pude praticar todo o meu alemão, como há muito não fazia - o que o instinto de sobrevivência não faz...
Legal né?
Claro que eu só conto essas coisas depois de estar melhor assim meus pais e minha vó não têm crises de pânico, então ninguém aí se preocupe pois eu já estou melhor.
:o)
Só estou evitando gorduras assim por essa semana...

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