Saudade e o Rio
Ao contrário do que muita gente pensa que muita gente pensa, a palavra saudade só existe mesmo em Português (talvez tb em hutu, mas aí eu não sei). A saudade é o fenômeno de rememorar situações agradáveis (pois ninguém tem saudade de coisas ruins), e como tal não é nem feliz nem triste; tudo depende de como reagimos a ela. A saudade pode ser triste, quando o presente contrasta com a lembrança e sentimos ausência. Por outro lado, a saudade pode ser feliz, quando mergulhamos nela profundamente e experimentamos novamente as sensações a que ela nos remete; eu arriscaria mesmo opinar que esta é a forma mais forte de felicidade, já que reside, invulnerável, no passado.
O Rio é a minha cidade natal, onde estão todos os meus familiares e também a grande maioria dos meus amigos. Foi lá onde praticamente todas as coisas importantes da minha vida aconteceram, e é evidente que eu sinto saudades do Rio. Resta saber se vai ser uma saudade feliz ou triste, e acho que eu aprendi bem rápido a encorajar uma e a afastar a outra. A minha vida aqui é feliz, eu não lamento de forma alguma estar aqui; se eu achasse uma lâmpada mágica não pediria pra voltar, pediria pra poder estar nos dois lugares ao mesmo tempo!
Esse desejo não tem preço, mas para todos os outros existe Mastercard então poderei aliviar a saudade visitando a todos durante o próximo mês de Julho. Chego no dia 8 e já estou contando as folhinhas...
Rio também era o nome do meu avô materno até uma semana atrás; ou melhor, ainda é. Eu não tenho muitas lembraças dele dos meus tempos de criança - acho que ele não entendia bem as crianças e as achava meio esquisitas (no meu caso particular, provavelmente com razão), embora eu tenha interagido razoavelmente com ele nos últimos tempos. Mas eu me lembro de quando tinha dez anos e, aconselhado por terceiros, pedi-lhe que me ensinasse o algoritmo de divisão, que eu tinha dificuldade de entender na escola. Como bom matemático, ele evidentemente começou por definir os números inteiros a partir dos axiomas de Peano e o princípio da indução, procedendo em seguida aos racionais via classes de equivalência, aos reais por completude ou alternativamente por cortes de Dedekind e, enfim, aos complexos, via a extensão de corpos induzida pelo elemento "i". Claro que em momento nenhum ele levantou a cabeça pra ver a cara assustada do menino de dez anos que estava ali, o que lhe permitiu ainda uma pequena digressão sobre grandezas cardinais, conduzindo à definição do número aleph-zero e ao enunciado da hipótese do contínuo. Para descontrair, contou-me a lenda do xadrez. O Domingo passou muitíssimo devagar, é verdade, e o menino de dez anos descobriu ao fim que ainda não sabia o algoritmo da divisão e teria de entregar o dever de casa em branco no dia seguinte. Aprendeu também que o objeto de interesse dos matemáticos não é o mundo real (o pai economista forneceu depois a explicação, com dois exemplos resolvidos, em cinco minutos). Ficou meio injuriado, até.
Mas não esqueceu.
Monday, June 06, 2005
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