Sunday, December 03, 2006

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Aviso: Atendimento Personalizado no Rio de Janeiro de 9 de dezembro a 9 de janeiro!

Boa tarlde Sênhores leitores, aqui quêim fala é Hêinrique da Cêintral de Atêindimêinto do Blog HnIS; no caso, Sênhores, nós gostaríamos de estar divulgãndo para os Sênhores o nosso novo serlviço presencial, totalmente perlsonalizado, de distribuiçãão de conteúdo que estará sêindo lançado neste verãão na cidade do Rio de Janeiro?
A parltirl do dia 9 de dezêimbro nós vamos estarl disponibilizãndo para os Sênhores, inteiramêinte grátis, oporltunidades de reuniãão com o principal colunista deste Blog totalmêinte ao vivo. Os Sênhores gostariam de estarl contãndo com mais esse serlviço, porl um período inicial de um mês, no caso, até o dia 9 de janeiro?
Para parlticiparl, basta entrarl em contato diretamêinte com o Hêinrique nos números de contato usuais de seu pai ou de sua mããe, e também de seu ãntigo celular, e agendarl uma visita. Lêimbrãmos que a ligaçãão é tarifa norlmal porl conta do usuário.
Lêimbramos que esta oporltunidade incrível só vai estar sêindo disponível porl têimpo limitado.
Lêimbramos ainda que o tópico anteriorl "Desventuras de aeroporlto" continua sêindo atualizado, para sua consulta, regularlmêinte.

A Cêntral de Atêindimento HnIS agradece a sua atêinçãão, e deseja-lhe uma boa tarlde.

Sunday, October 08, 2006

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Desventuras aeroportuárias

É verão no hemisfério norte e os grupos terroristas internacionais recorrem a explosivos líquidos e cremosos, como maquiagens e leite materno, para abater as frotas comerciais do Ocidente. Ou pelo menos é isso que explica as novas medidas irracionais de segurança que, juntamente com a minha tolice natural, motivaram a peculiar seqüência de eventos que pontuaram minhas múltiplas expedições veranis. Os relatos a seguir dão nova luz ao conceito de custo de imbecilidade, definido pelo Prof. Fábio Sá Earp como o ônus adicional que a distração e a falta de planejamento podem acarretar em determinada iniciativa.

- I -

Já dava 4h da manhã no dia 17 de julho e a festa de aniversário de Carolina ainda acontecia lá no quintal quando embarcamos, parcialmente conscientes, no táxi rumo ao aeroporto. O meu destino final era a ibérica Córdoba, onde ocorreria a conferência Mathematics for peace and development(!), proposta interessante que contaria com a presença do meu ilustre orientador e, sobretudo, merenda por conta. O dela, um congresso de antropologia em Sevilha coincidentemente no mesmo período, o que esclarece ao leitor a inusitada combinação.
A distribuição pouco clara das tarefas aliada às circunstâncias festivas resultaram na chamada do táxi às pressas e o check-in foi feito nos últimos minutos, apenas para dar lugar a uma carreira desvairada ao portão de embarque. O infame trâmite do raio-X foi cumprido às pressas, respeitando a ordem:
1. colocar a mochila na esteira;
2. colocar o casaco na esteira;
3. esvaziar os bolsos na cestinha.
Atravessa-se então o detector de metais e em seguida, inversamente,
1. vestir o casaco;
2. vestir a mochila;
3. sair correndo pra não perder o vôo.
Felizmente chegamos a tempo para o embarque e nos instalamos confortavelmente nos assentos designados à espera da decolagem, momento em que eu - certamente menos astuto que o presente leitor - me dei pela falta do conteúdo dos meus bolsos, entre os quais minha carteira, meu celular e minhas chaves de casa. A aeromoça naturalmente decretou que não seria possível reaver os objetos sem perder o vôo e eu então, como já estivesse sentado mesmo, decidi prosseguir a viagem nestes novos termos.
Claro que passar uma semana em Córdoba sem dinheiro, cartões de crédito ou quaisquer outros documentos além do passaporte - este fica sempre na minha mão, estratégia que o leitor agora pode julgar com maior compaixão - não é exatamente um projeto dos mais cômodos, mas os versos do luso trovador me acalmaram lembrando que viajar é preciso, celular não é preciso. Claro também, segundo outro ditado popular, que por trás de todo grande homem há uma mulher com um cartão de banco europeu. Munido deste miraculoso plastiquinho e da senha para todas as economias da moça, deixei-a em Sevilha e marchei de fronte erguida à cidade das Três Culturas.

Epílogo: sob os auspicios do generoso Prof. Jair Koiller consegui que a equipe de organização do evento intermediasse o contato com as autoridades do aeroporto e registramos a perda dos objetos. De volta a Londres na semana seguinte, recuperei sem problema todos os itens, placidamente embalados em saco etiquetado, inclusive todo o dinheiro que estava na carteira. Afinal, pelo menos na Inglaterra, Zippy zipa tudo. O vôo de volta, aliás, atrasou 2h e com isso perdi o último trem pra Londres. Após longa paripécia consegur chegar a casa por volta das cinco da manhã. Note por fim o leitor que, como minha câmera é embutida no celular, infelizmente não tenho fotos do Alhambra, nem de Granada, nem de nenhuma outra maravilha andaluz para compartilhar.

- II -

Poucas semanas depois, veio visitar-me aqui em Londres o saudoso amigo Umberto, ex-colega de mestrado, que está estudando em NY e vinha a uma conferência na Alemanha. Já conhecendo o funcionamento das burocracias européias - com mais dinheiro do que idéias -, solicitei apoio financeiro pra ir junto e funcionou. Note-se que eu não tinha a menor relação acadêmica com o tema do evento, mas colou, fazeuquê? Assim, depois de alguns dias passeando por Londres, fomos juntos para Leipzig, a pérola (?) da Alemanha Oriental.
Com exceção do túmulo do Bach na catedral da cidade não tem absolutamente nada pra visitar em Leipzig. O jeito é aproveitar os preços baixos e explorar os restaurantes, cada vez pedindo porções maiores. Atingimos o limite num bufê de costeletas por 11€, o que acarretou a perda de uma tarde imobilizado na cama fazendo a digestão.
O baixos preços também fazem com que a população estudantil de Leipzig desenvolva uma relação problemática com a vertical, na medida em que meio litro de cerveja custa 1€.
Os infortúnios aeroportuários, no caso dessa viagem, foram na volta. Eu cheguei em cima da hora na estação de trem (porque me perdi no centro da cidade) e fui direto perguntar a plataforma da primeira partida. O não-tão-jovem funcionário do guichê, decerto saudoso dos bons tempos em que havia fartos turistas russos pra sacanear, indicou-me a errada. Felizmente a minha desconfiança natural - juntamente com o poliglotismo obcessivo - sugeriu dar uma última olhada no quadro de horários antes de correr e, então, descobri o engano. Quando confrontado com o fato, o camarada deu de ombros e continuou a ler uma revista. Sem tempo de construir uma ofensa gramaticalmente correta, saí batido.
Chegando à plataforma a máquina de bilhetes recusou-se a emitir. O maquinista do trem que partia passou ao meu lado e, quando eu apresentei o problema - esperando solidariedade e talvez uma esperadinha na partida - respondeu: "Não tenho como alterar este fato". Então no último minuto passou uma caridosa senhora, pelo visto bem acostumada com a máquina, que gentilmente apertou vários botões em combinação aparentemente ilógica, colocou a minha nota de 20€ e entrou no trem sem mais dizer, deixando-me 30 segundos pra coletar o meu bilhete e os 18.30€ em moedinhas que a máquina cuspia qual um caça-níqueis.
Chegando ao aeroporto, o camarada guarda da imigração - decerto saudoso dos tempos em que ganhava um dia folga pra cada fugitivo abatido na cerca de fronteira - decidiu que o meu tempo de permanência na União Européia havia expirado, pois como turista eu só tinha direito a 3 meses e aparentemente eu estava na zona havia mais do que isso. Eu expliquei que eu era residente no Reino Unido, o que ele não entendeu porque afinal de contas um guarda da imigração não precisa saber inglês. Então eu expliquei outra vez numa mistura de alemão com marciano e aí ele se dispôs a consultar um colega. Os dois ficaram na frente do computador por uns 3 minutos repetindo "Brasilien, Brasilien..." e finalmente o colega resolveu autorizar a minha saída - decerto convencido finalmente de que eu não era um traidor do Povo nem inimigo da Revolução.

- III -


Quinze dias depois foi quando, não contente com a experiência teuto-traumatizante em Leipzig, resolvi insistir contra o azar e partir com Carolina para um aparazível final de semana prolongado em Berlim, apostando na feliz coincidência entre este desejo antigo da moça com preços indecentemente atraentes de passagem e hotel na baixa temporada. O segredo desses vôos baratinhos é que eles saem super cedo e e geral de aeroportos bizarros, de forma que o custo de deslocamento até lá, o incômdo de sair de casa às 4 da manhã e a parvidão dos funcionários compensem o preço.




Pra completar, minha adorável companheira de viagem e eu tivemos uma briga na noite anterior e não dormimos praticamente nada, de forma que tivemos de enfrentar todos os dissabores já mencionados na condição de zumbis sonolentos e fazendo muxôxo um pro outro. Chegando Berlim tudo se resolveu e foi muito divertido. Vimos Muro de Berlim, museu do Muro de Berlim, Café "Muro de Berlim", Parlamento (o Bundestag, que tanto inspira o sofisticado senso de humor de certos brasileiros), bares loucos em prédios abandonados, pessoas com cabelos esquisitos, memorial do Holocausto e também esse urso gigante folgado aí da foto.







Destaque da viagem para o Museu da Stasi (em alemão oriental, Ministério para a Segurança do Estado), centro da paranóia toda que rolava nos idos tempos. Pra começar, o museu fica no próprio complexo que era da Stasi, que fica escondido no meio do nada nos arredores de Berlim e muito mal sinalizado (imagino que na época não houvesse sinal algum...). É um bloco de imóveis horrorosos (aliás, a palavra 'horroroso' é horrorosa, não acham?), sendo que o dos arquivos centrais - pasmem - não têm porta! É isso mesmo, entre por um túnel subterrâneo, se tiver credencial. nós não tínhamos e ficamos na programação básica mesmo, incluindo todas aquelas engenhocas tipo pedra que tira foto, metralhadora disfarçada de gato etc. Destaque para os gabinetes do Ministro e seu primeiro escalão, cuja decoração guarda peculiar semelhança com a quase homônima Stea, antiga empresa do meu avô.

Chega de episódios pitorescos, pois este tópico é dedicado às desventuras. Vínhamos nós voltando com nossas malas para o aeroporto, já algo surpresos de a única coisa que dera errado até então fora a nossa briga da ida. Planejamos pegar um trem que dava boa antecedência, sem no entanto observar que, aos domingos, sua periodicidade era muito menor. Perdemos o trem por questão de segundos - descendo as escadarias contra o fluxo dos passageiros recém-depositados. Aproveito o ensejo para convidar os arquitetos do mundo a se unirem em torno da solução deste estúpido problema de fluxo. Mas voltando ao tema, tive de recorrer ao meu alemão com sotaque de Marte pra descobrir junto ao funcionário da estação quão grave a nossa situação era, feito o que só nos restou partir em disparada à rua principal atrás de um táxi.

Depositou-nos no aeroporto em grupos: Carolina foi correndo na frente pra tentar segurar o check-in aberto e eu, em seguida, tendo pago o taxi e carregado todas as malas o mais rápido possível. Deparo com a moça desolada diante de uma funcionária inflexível, dessas que culpam o computador pela própria falta de oportunidades na vida. Brasileiro branco e burguês, pedi pra falar com a superior dela. Brasileira branca e burguesa enrustida, Carolina ensaiou um bate-boca com a dita, merecendo um rosnado e nenhuma boa vontade. Então eu, carioca cara-de-pau, pedi desculpas pelo transtorno, pela minha irresponsabilidade, pelo meu atraso e perguntei se ela não nos poderia ajudar, vez que éramos estudantes e não tínhamos dinheiro para outra passagem e mais uma noite em Berlim; além do que, a esteira estava funcionando e de repente as bagagens ainda estavam ali atrás, e seria inacreditável que um sistema eficiente como o deles nos fizesse perder o vôo sendo que havia possibilidade de remédio. Ela esboçou um meio-sorriso-rosnado-pro-lado, sacou o celular, ligou pro carinha lá de dentro e mandou segurar um minuto que faltavam duas malas. Eu agradeci, elogiei o atendimento e naturalmente assegurei que aquilo não se voltaria a repetir. Depois saimos em disparada, como já de hábito, pro portão de embarque.

- IV -

Dia 3 de setembro era minha vez de voltar à Espanha, aos olhos dos madrilenhos, ou de ir à Espanha, como queiram alguns andaluzes. Novamente para uma conferência de matemática, parti animado e sem transtornos já contando com a gentil hospedagem do amigo Marcio Viegas (que eu chamo de Piegas, o que por si só é uma piada piegas e assim adquire duplo valor cômico), ex-Londres, ora Madri. Ei, eu disse "sem transtornos"? Só se ter a sua bagagem perdida pela British Airways e ter que passar sete dias indo à conferência com mesmas camisa, bermuda e sandálias havaianas (e pior...) não for transtorno pra você! Sem falar, claro, em escova de dentes, desodorante e demais supérfluos de que afinal de contas nossa espécie não precisou durante milênios a fio pra chegar até aqui.
Pra quem pensa que caos nos aeroportos é prerrogativa do Lula, notem que o serviço da BA estava tão desorganizado que não era possível sequer falar com algum funcionário por telefone. Até o infeliz estagiário que atualiza a página deles devia estar triando malas em Heathrow naquela semana. O Marcio ainda ofereceu um tênis e umas camisetas pra amenizar o problema, mas ante a impossibilidade de estender a sua generosidade a toda a gama de vestimentas que se faziam necessárias, recomendou que eu comprasse tudo novo e depois pedisse reembolso. Já sabendo que não ia ter reembolso coisa alguma eu virei, peguei, fui e comprei mesmo (por que a gente tem que virar, pegar e ir antes de fazer as coisas?), no valor de £111.00, que é dinheiro, é libra, não é essa merreca desse vale-soja aí de vocês não.
E não é que a BA não apenas me rembolsou mas ACHOU a minha mochila? Quando eu cheguei no aeroporto pra vir embora resolvi passar nas Bagagens Perdidas só por desencargo e lá estava tudinho. No fim das contas acabei ganhando £111.00 em roupas, mas por algum motivo continuo tentando arrumar um jeito de culpar o Lula pelo transtorno.

- V -


Diz a lenda que quando T. E. Lawrence voltou da Arábia, onde convenceu as tribos a se unirem contra os turcos e assim venceu a guerra colonial para os ingleses, ele ficou aborrecido com o descaso da Coroa ante a causa da Independência Árabe, recusou o título de Cavaleiro e lançou uma maldição sobre todos, em seus dias ou por vir, que ousassem pisar solo berbere com sapatos britânicos.

Apesar de eu ter inventado isso, resolvemos nos precaver no dia 25 de setembro quando saía nosso vôo pra Tunísia. Escaldados pelas experiências anteriores, decidimos que esta última viagem do verão seria pra acertarmos. Chega de correria, perder trem, bagagens despachadas às pressas, ansiedade na fila - enfim, não mais desventuras aeroportuárias. Planejamos tudo meticulosamente e saímos de casa com muita antecedência, ainda no meio da noite, pra cobrir toda e qualquer possibilidade de imprevisto. Ônibus atrasado, fila de check-in enorme, nada nos deteria pois saímos com tempo de sobra pra não precisar esquentar a cabeça.

Chegamos ao aeroporto Gatwick com quase duas horas de antecedência para nosso vôo e já fomos direto para o check-in, deixar as bagagens e relaxar na sala de embarque.

Foi aí que vimos que a Alitalia não tinha nenhum vôo previsto no painel. Nem aparentemente tinha guiché no saguão. Consultei novamente a nossa passagem pra confirmar o horário - afinal, tínhamos chegado realmente muito cedo. O nosso vôo saía de Heathrow.

Enquanto a menina se desesperava eu arrumei um táxi, que custou a dívida um pequeno país africano mas afinal nos levou a tempo.

A conexão em Milão foi muito pior do que tudo até então, pois tínhamos 20 minutos apenas para trocar de vôo e as autoridades italianas queriam revistar TODO MUNDO OUTRA VEZ no raio-X. Não apenas do nosso vôo, mas também de outros dois que trocavm na mesma hora, sendo um, pra coroar, El-Al de Tel-Aviv pra Nova Iorque. O jeito foi decretar que a época dos gentlemen já passara (se é que chegou a ocorrer na Itália algum dia), sair empurrando as outras pessoas, passar por baixo das fitas organizadoras de fila e entrar na frente do raio-X na marra - sempre pedindo desculpas em todas as línguas conhecidas e dizendo que era urgente. Notei que um rabino refletiu e aprovou a nossa iniciativa. Pegamos o avião a dois minutos da hora de partida.

Tunis é uma cidade colonial francesa misturada com Medina árabe e favela. A foto ao lado ficou ruim mas dá uma idéia da coisa. Absolutamente qualquer atividade econômica em curso no nosso trajeto parecia requerer a nossa imediata atenção, pelo que éramos abordados por garçons, taxistas, guias falsos, guias verdadeiros, feirantes, pedintes, meninos e também alguns gatos. Qualquer poste tem uma bandeira da Tunísia e qualquer parede tem que ter uma foto do presidente, o Ben-Ali (que nós apelidamos carinhosamente de Right-over-there. ) Até o Polenguinho deles chama-se Presidente, como indica incessantemente um dos únicos quatro comerciais que existem na televisão tunisiana.
(coninuo depois, agora estou com fome.)

Sunday, August 13, 2006

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Três degraus

Mês passado aconteceu a edição anual do festival Marxism, evento de uma semana com milhares de visitantes de toda a Ilha e também da Europa, um continente que fica aqui perto. São palestras, oficinas, apresentações artísticas e afins, com representantes da esquerda local (como os políticos Tony Benn e George Galloway e o cineasta Ken Loach) bem como da Bolívia, da Irlanda do Norte (leia-se do IRA), da África do Sul etc e que termina com todo mundo cantando o Hino da Internacional, que nem antigamente.

A história que eu vou contar não tem nada a ver com isso, embora tenha. Na saída da palestra do Ken Loach (que fez Terra e Liberdade e o novo The wind that shakes the barley, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes este ano) os organizadores (da 'ala jovem') do evento marcaram uma festa de encerramento num bar em Embankment para onde eu prontamente me dirigi. Quando descia as escadas do teatro notei que havia uma moça de cadeira-de-rodas e parei pra perguntar se ela precisava de ajuda. No processo de colocá-la no elevadorzinho etc descobri que ela e a amiga ao lado eram francesas e engrenei no meu poliglotismo habitual mencionando a tal festa. As duas disseram que gostariam de ir e eu me ofereci a acompanhá-las, pois elas não conheciam a cidade. Foi que a aventura de verdade começou.
Não sei se são as nossas verduras brasileiras miraculosamente nutritivas, os poderes curativos dos nossos pastores evangélicos ou o descaso total do nosso espaço público que faz com que no Rio de Janeiro seja muito raro encontrar deficientes físicos transitando. O fato é que eu e, creio, a maioria dos quatro leitores de HnIS, não fazemos idéia da dificuldade que os mais simples deslocamentos representam para essas pessoas. No caso em questão, a moça era uma espécie de 3,5-plégica (ela mexia os braços e as mãos mas sem força nem muita coordenação) e a amiga tinha que fazer quase tudo pra ela (abrir portas, bolsa, dinheiro). A cadeira tinha um motor a bateria e era um CUSTO pra subir qualquer elevação, mesmo a rampinha pra deficientes que (a maioria d)as calçadas londrinas têm. Embora Embankment ficasse a apenas quatro estações de metrô, tivemos que pegar um ônibus, pois a estação em que estávamos (Euston) não tinha elevadores de acesso. E lá fomos à velocidade de cinqüenta metros por minuto até o ponto de ônibus.
Descemos em Charing Cross, que fica a 300 metros do destino, e de saída já tivemos que atravessar um terrível trecho de uns 15 metros de paralelepípedos (não parece nada, só que ela sente desconforto com o relevo e tem literalmente que subir e descer de cada um deles), o que poderia ter sido mais tranqüilo se não tivesse começado a chover.
Sendo a cadeira eletrônica vulnerável aos elementos, tivemos de nos abrigar sob uma árvore e esperar no vento frio até passar. Finalmente, depois de uns vinte minutos, pudemos completar o resto da maratona de 285m até Embankment. Lá estava enfim o bar, após uma hora e quinze de trajeto. Só tinha um detalhe: o saguão da estação está três degraus acima do nível da rua e a menina não conseguia descer. Ela não podia tampouco ser carregada, porque a cadeira é muito pesada e o risco de danificá-la em uma queda não poderia ser corrido. Por causa disso ela e a leal amiga tiveram que dar a volta em todo o quarteirão, sob os chuviscos; enquanto isso eu entrei no bar pra preparar a sua chegada - a essa altura eu já sabia que absolutamente tudo tem que ser verificado minuciosamente em busca de possíveis impedimentos pro deslocamento da cadeira. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que, embora de fato o local tivesse instalações para o acesso de deficientes ao andar térreo, o bar tinha DOIS AMBIENTES, sendo a pista de dança (onde todos estavam) no subsolo e sem elevador. Resultado: as duas deram a volta toda e tiveram que ficar isoladas lá em cima (eu fiquei indo lá o tempo todo pra ver como elas estavam, mas não sei se ajudou muito), no mesmo lugar que a festa, e no entanto em lugares diferentes.

A lição de Marxism 2006 pra nós três foi essa: sejamos otimistas, o socialismo está logo ali, a apenas três degraus.

Saturday, June 24, 2006

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Viva o gordo

Saúdo a todos aqueles que, como eu, desejavam a saída do Ronaldinho Gorducho até ele marcar o primeiro gol e começar a comandar a destruição dos malditos amarelos.

Eu assisti ao jogo no Lloyd's, um bar exatamente igual a todos os outros, inclusive pelo típico carpete vermelho-sujo que dá alergia. O motivo, mais uma vez, foram os infames australianos, praga recorrente nesta cidade impregnada de culpas coloniais e que, assim, tolera a sua presença e transmite os seus jogos, ao invés dos do Brasil, quando há concomitância. O Lloyd's é suficientemente pé-rapado pra acolher aos brasileiros e tinha 7 telas de cristal, então lá fomos. Doravante, no entanto, voltaremos ao Slug & Lettuce (Lesma & Alface), bar australiano porém munido de telão e visitado literalmente por uma centena de brasileiros no primeiro jogo, contra a Croácia. Minha ex-namoradinha Anita (de família Croata), inclusive, foi ver o jogo lá também e foi zoada por todos aos brados de "toalha - de mesa!" (em alusão ao uniforme); haha, bem feito, quebrou a cara, aquela megera.

...

Hoje começa a sensacional "Semana de Fulham" (o bairro onde eu moro), o que significa que puseram um infame carrossel pra essas crianças estúpidas ficarem girando ad nauseam enquanto os pais socializam com vizinhos que jamais voltarão a ver. Quando seus alvos filhos desabituados ao sol estiverem com queimaduras de primeiro dar-se-ão conta de que é hora de partir e despedir-se-ão de seus novos amigos: "If you'll excuse me, I might have to get going soon, I'm afraid...". Céus, nesse exato momento em que escrevo a sub-prefeita está subindo ao palco para dedicar algumas palavras à comunidade. Esse era o sábado em que eu queria dormir em paz até tarde.

Friday, May 19, 2006

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Primavera

Já que o mercado não resolve tudo por si só e como era a última alternativa a sentar pra estudar numa sexta-feira à noite, decidi retomar este Blog. A tarefa portanto será resumir o que aconteceu na minha vida nos últimos cinco meses, omitindo brutalmente todos os detalhes que não vierem à mente de primeira porque afinal eu tenho (?) mais o que fazer.
Em janeiro não aconteceu nada.
Em fevereiro o meu pai veio visitar-me cá em Londres com Rossana. Levei-o a Cambridge, onde ele viu o jardim do King's College onde o Keynes meditava e depois disse que estava satisfeito e já podíamos ir embora daquela cidade.
Foi-se o velho, fui-me à Holanda, visitar a gentil amiga Carolina que me comprou a passagem de presente de aniversário. Chegando a sua casa, caí de cama com 38,5 de febre e lá fiquei todos os três dias da viagem, suando e delirando - pra você que me conhece e achou que eu seria a primeira pessoa a não ter alucinações em Amsterdam.
De volta a Londres em março, recebi aqui em casa a Paula Pamonha, filha de uma amiga da minha mãe, que ficou retida na imigração de Heathrow e eu tive que ir lá retirá-la - mais ou menos como as entregas da Amazon que ficam retidas no correio para averigüações alfandegárias. Ela ficou aqui em casa apenas dois dias, conheceu os meus colocatários debilóides, foi acordada com o pé e passeou em Londres na chuva.
Também em março, dessa vez em minha identidade pública de brasileiro VIP (em português, PIM: pessoa importante mesmo), reuni-me com o Ministro da Educação Sr. Fernando Haddad para discutir a mal-fadada realidade dos nossos estudantes de pós-graduação na Ilha Selvagem. É verdade que eu estava bastante ocupado naquela semana, mas sendo um ministro de estado, pensei, dá pra encaixar no meu horário.
Ocupado, sim! Porque o pano de fundo (trágico) disso tudo foi a redação do meu relatório (First Year Report), que como o nome diz é feito no segundo ano de doutorado e, caso insatisfatório, pode resultar na expulsão do programa de doutorado. Eis que o meu carinhoso orientador não leu lá com muita atenção o texto e no dia da defesa o outro examinador achou dois erros nos meus principais teoremas. Então, ainda carinhosamente, ambos me deram 6 semanas pra consertar os erros - e essas foram as minhas férias de Páscoa. Razão pela qual, aliás, eu não fui ao Brasil pedir greve de fome por tempo indeterminado pro Garotinho Matheus.
Indulgi, porém, em pequeno luxo e fui visitar o Daniel Simão em Veneza por 3 dias. Ele teve a oportunidade de revisitar todas as atrações da cidade comigo pela milésima vez - o que tanto fazia, na verdade, contanto que desse tempo de falar mal de todo mundo que a gente conhece no Brasil. Inclusive do Garotinho.
Corrigido meu relatório, passo à minha pesquisa de tese concretamente.
...
Esteve aqui também, há uns dez dias, saudoso Duduca Kaplan, conhecido de certa subtribo de leitores do HnIS. Menos conhecido, talvez, seja o fato de que os Kaplan, assim como os Schlopff e os Trimm pertencem ao peculiar ramo semítico que adota onomatopéias como sobrenome. Duduca pegou meu celular antigo emprestado pra ir de bicicleta até a Irlanda, ou algo assim. Mas devolveu depois.
...
É chegada a primavera e com ela a temporada de Ultimate Frisbee no Hyde Park aos domingos (uma espécie de frango-com-farofa sem frango nem farofa) dos brasileiros e gringos brasilófilos cuja presença nós toleramos. Latinos que somos, organizamos também algumas festas aqui no apê, consolidando assim a nossa posição de centro gravitacional da vida social londrina e garantindo muitas horas de discussão sobre quem vai lavar a louça no dia seguinte.
Fomos jogar Paintball e o Ernesto comeu todo o queijo-ralado que era pra dividir por todo mundo na macarronada do intervalo. Doravante apelidado Ernesto Parmesão.
Fizemos um pique-nique no Hyde Park, que choveu.
Filmamos um bêbado aqui na frente de casa que não conseguia calçar o sapato.

Pronto, acabei. Jubilem.

Wednesday, March 01, 2006

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Não, esse blog não morreu

Pros que achavam que eu cansei desse blog, vocês estavam certos! Realmente eu passei os últimos dois meses meio enjoado dessa obrigação jornalística, até porque metade dos leitores ( = meu pai) estava aqui em Londres mesmo.
Pra falar a verdade, eu continuo enjoado, mas já estou desenjoando, então aguardem que muito em breve eu vou contar o que fiz, comi e vesti desde 28 de dezembro do ano passado - ou não.