Três degraus
Mês passado aconteceu a edição anual do festival Marxism, evento de uma semana com milhares de visitantes de toda a Ilha e também da Europa, um continente que fica aqui perto. São palestras, oficinas, apresentações artísticas e afins, com representantes da esquerda local (como os políticos Tony Benn e George Galloway e o cineasta Ken Loach) bem como da Bolívia, da Irlanda do Norte (leia-se do IRA), da África do Sul etc e que termina com todo mundo cantando o Hino da Internacional, que nem antigamente.
A história que eu vou contar não tem nada a ver com isso, embora tenha. Na saída da palestra do Ken Loach (que fez Terra e Liberdade e o novo The wind that shakes the barley, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes este ano) os organizadores (da 'ala jovem') do evento marcaram uma festa de encerramento num bar em Embankment para onde eu prontamente me dirigi. Quando descia as escadas do teatro notei que havia uma moça de cadeira-de-rodas e parei pra perguntar se ela precisava de ajuda. No processo de colocá-la no elevadorzinho etc descobri que ela e a amiga ao lado eram francesas e engrenei no meu poliglotismo habitual mencionando a tal festa. As duas disseram que gostariam de ir e eu me ofereci a acompanhá-las, pois elas não conheciam a cidade. Foi aí que a aventura de verdade começou.
Não sei se são as nossas verduras brasileiras miraculosamente nutritivas, os poderes curativos dos nossos pastores evangélicos ou o descaso total do nosso espaço público que faz com que no Rio de Janeiro seja muito raro encontrar deficientes físicos transitando. O fato é que eu e, creio, a maioria dos quatro leitores de HnIS, não fazemos idéia da dificuldade que os mais simples deslocamentos representam para essas pessoas. No caso em questão, a moça era uma espécie de 3,5-plégica (ela mexia os braços e as mãos mas sem força nem muita coordenação) e a amiga tinha que fazer quase tudo pra ela (abrir portas, bolsa, dinheiro). A cadeira tinha um motor a bateria e era um CUSTO pra subir qualquer elevação, mesmo a rampinha pra deficientes que (a maioria d)as calçadas londrinas têm. Embora Embankment ficasse a apenas quatro estações de metrô, tivemos que pegar um ônibus, pois a estação em que estávamos (Euston) não tinha elevadores de acesso. E lá fomos à velocidade de cinqüenta metros por minuto até o ponto de ônibus.
Descemos em Charing Cross, que fica a 300 metros do destino, e de saída já tivemos que atravessar um terrível trecho de uns 15 metros de paralelepípedos (não parece nada, só que ela sente desconforto com o relevo e tem literalmente que subir e descer de cada um deles), o que poderia ter sido mais tranqüilo se não tivesse começado a chover.
Sendo a cadeira eletrônica vulnerável aos elementos, tivemos de nos abrigar sob uma árvore e esperar no vento frio até passar. Finalmente, depois de uns vinte minutos, pudemos completar o resto da maratona de 285m até Embankment. Lá estava enfim o bar, após uma hora e quinze de trajeto. Só tinha um detalhe: o saguão da estação está três degraus acima do nível da rua e a menina não conseguia descer. Ela não podia tampouco ser carregada, porque a cadeira é muito pesada e o risco de danificá-la em uma queda não poderia ser corrido. Por causa disso ela e a leal amiga tiveram que dar a volta em todo o quarteirão, sob os chuviscos; enquanto isso eu entrei no bar pra preparar a sua chegada - a essa altura eu já sabia que absolutamente tudo tem que ser verificado minuciosamente em busca de possíveis impedimentos pro deslocamento da cadeira. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que, embora de fato o local tivesse instalações para o acesso de deficientes ao andar térreo, o bar tinha DOIS AMBIENTES, sendo a pista de dança (onde todos estavam) no subsolo e sem elevador. Resultado: as duas deram a volta toda e tiveram que ficar isoladas lá em cima (eu fiquei indo lá o tempo todo pra ver como elas estavam, mas não sei se ajudou muito), no mesmo lugar que a festa, e no entanto em lugares diferentes.
A lição de Marxism 2006 pra nós três foi essa: sejamos otimistas, o socialismo está logo ali, a apenas três degraus.
Sunday, August 13, 2006
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