No caso, senhor (1/7/07): A verdade, o dinheiro e mais um título em tríade, Parte 1
Meu pai não acredita em bactéria. Pelo menos era isso que ele dizia pra justificar as pajelanças à base de alho e própolis com que curou praticamente todas as minhas enfermidades infantis. O bom velhinho justificava sua incredulidade no fato de nunca ter visto uma bactéria, explicação que - bem me lembro - causava profundo estranhamento nos outros adultos, soando talvez como uma velada propensão infanticida. No entanto, de um ponto de vista estritamente científico, meu pai estava certo.
Longe de juntar-me às hostes de detratores da medicina alopática, o que quero ilustrar com isso é a enorme distância entre o meio científico, com seus mecanismos internos de produção de verdades, e o público não-especialista, que de alguma maneira tem de absorver essas verdades. Em outras palavras, como é que quem está de fora - e portanto não tem nem competência, nem financiamento, nem grande vontade de reproduzir os processos de verificação - pode julgar as afirmações dos especialistas e, quando estes divergem, posicionar-se?
A fabricação de verdades não é nem invenção nem exclusividade dos cientistas. Toda e qualquer instituição só é levada a sério na medida em que produz verdades convincentes. Por exemplo, ninguém hoje duvida de que a Al-Qaeda pode destruir arranha-céus com aviões, ao passo que em, digamos, 1993 o Bin-Laden não conseguiria mais que um bloco no programa da Hebe. Os estados nacionais, os grupos religiosos com seus vários matizes de lunáticos, a imprensa, os astrólogos e os homeopatas são outros exemplos de produtores de verdades. Em todos os casos, o grande público tem no máximo uma vaga idéia de como esses grupos chegam a suas conclusões e acaba alinhando-se como pode, contentando-se com uma participação marginal e, inevitavelmente, eximindo-se de responsabilidade por seguirem os donos da palavra.
Os admiradores da Ciência dirão que seu sistema é diferente dos demais, pois sua construção de verdades é baseada na dedução lógica fundada em experimentos rigorososamente descritos e, sobretudo, reprodutíveis. Ainda que fosse sempre assim, persiste o problema de que tais verdades só são verificáveis - portanto, legitimáveis como verdadeiras - por quem possa tanto acompanhar a formulação do modelo quanto repetir os protocolos experimentais. Eu próprio, que fiz mestrado em física teórica, tenho mais ou menos tanta evidência empírica da existência do top quark quanto de Jesus ter nascido de uma virgem. A única diferença é que ninguém ainda conseguiu construir um celular à base de Jesus.A verdade científica, como todas as demais verdades institucionais, só é plenamente verificável no interior da própria instituição. Na Parte 2, vou sugerir que nem tudo está perdido e que, afinal, o grande público pode decifrar até certo ponto as conclusões dos especialistas - basta farejar a origem do vil metal. Fiquem ligados e confiram (por si mesmos)!





