Monday, July 02, 2007

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No caso, senhor (1/7/07): A verdade, o dinheiro e mais um título em tríade, Parte 1

Meu pai não acredita em bactéria. Pelo menos era isso que ele dizia pra justificar as pajelanças à base de alho e própolis com que curou praticamente todas as minhas enfermidades infantis. O bom velhinho justificava sua incredulidade no fato de nunca ter visto uma bactéria, explicação que - bem me lembro - causava profundo estranhamento nos outros adultos, soando talvez como uma velada propensão infanticida. No entanto, de um ponto de vista estritamente científico, meu pai estava certo.


Longe de juntar-me às hostes de detratores da medicina alopática, o que quero ilustrar com isso é a enorme distância entre o meio científico, com seus mecanismos internos de produção de verdades, e o público não-especialista, que de alguma maneira tem de absorver essas verdades. Em outras palavras, como é que quem está de fora - e portanto não tem nem competência, nem financiamento, nem grande vontade de reproduzir os processos de verificação - pode julgar as afirmações dos especialistas e, quando estes divergem, posicionar-se?

A fabricação de verdades não é nem invenção nem exclusividade dos cientistas. Toda e qualquer instituição só é levada a sério na medida em que produz verdades convincentes. Por exemplo, ninguém hoje duvida de que a Al-Qaeda pode destruir arranha-céus com aviões, ao passo que em, digamos, 1993 o Bin-Laden não conseguiria mais que um bloco no programa da Hebe. Os estados nacionais, os grupos religiosos com seus vários matizes de lunáticos, a imprensa, os astrólogos e os homeopatas são outros exemplos de produtores de verdades. Em todos os casos, o grande público tem no máximo uma vaga idéia de como esses grupos chegam a suas conclusões e acaba alinhando-se como pode, contentando-se com uma participação marginal e, inevitavelmente, eximindo-se de responsabilidade por seguirem os donos da palavra.

Os admiradores da Ciência dirão que seu sistema é diferente dos demais, pois sua construção de verdades é baseada na dedução lógica fundada em experimentos rigorososamente descritos e, sobretudo, reprodutíveis. Ainda que fosse sempre assim, persiste o problema de que tais verdades só são verificáveis - portanto, legitimáveis como verdadeiras - por quem possa tanto acompanhar a formulação do modelo quanto repetir os protocolos experimentais. Eu próprio, que fiz mestrado em física teórica, tenho mais ou menos tanta evidência empírica da existência do top quark quanto de Jesus ter nascido de uma virgem. A única diferença é que ninguém ainda conseguiu construir um celular à base de Jesus.

A verdade científica, como todas as demais verdades institucionais, só é plenamente verificável no interior da própria instituição. Na Parte 2, vou sugerir que nem tudo está perdido e que, afinal, o grande público pode decifrar até certo ponto as conclusões dos especialistas - basta farejar a origem do vil metal. Fiquem ligados e confiram (por si mesmos)!

Sunday, June 24, 2007

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No caso, senhor (24/06/2007): A coisa mais imbecil que existe

Esqueça a bomba atômica e o eleitorado do Maluf; a coisa mais imbecil que existe é o recibo. O recibo é o sacramento da transação passada, do processo efetuado, do assunto encerrado. Como ato jurídico que já nasce destinado ao arquivo, ele é a prova cabal de nosso atraso civilizacional, certificado de nosso pedigree de homo burocraticus. Como lastro garantidor de contrapartida futura, ele sanciona o fracasso de nossas relações sociais outrora baseadas na palavra dada, na confiança e na honra. O recibo nasce hostil à parte emissora e sobrevive do parasitismo junto à parte receptora, disfarçando a própria inutilidade com o velo de ouro da última salvaguarda, do vai-que-dê-alguma-merda.


Nenhum cidadão ou cidadã do que insistimos chamar nossa civilização está livre deste indigno estágio da matéria eucalíptica, que macula nossos espaços originalmente concebidos para acomodar fortunas, documentos cívicos e recordações afetivas. Qual o próprio diabo, que comparece sob muitos nomes, o recibo manifesta-se em congêneres feito a notinha, a segunda via amarela ou rosa e o canhoto - este último, aliás, na sempre esclarecedora sabedoria popular, também designa o coisa-ruim. Apesar de sua onipresença e multiplicidade, ele remete ao nada e, portanto, é um não-símbolo. Um não-símbolo pro forma, veja você.

Numa humanidade fragmentada pelo consumismo e pelo reflexo da política norte-americana para o Oriente Médio sobre as matérias primas - e, consequentemente, o preço final - dos desodorantes, o ódio ao recibo pode ser o impulso que faltava para operarmos a tão esperada mudança de paradigma. Todos, absolutamente todos os seres humanos deste nosso planeta-lar, com a exceção do meu tio Carlos Alberto, odeiam coletar recibos e sentem-se mais aviltados do que protegidos por estas toscas criações. Coloquemos nossa inteligênica, nossa capacidade de separar o verdadeiro do falso tão exaltada por Descartes, a serviço de uma nova logística, diria mesmo uma nova forma de organização social, em que finalmente derrotemos o recibo! Nossas gavetas e prateleiras nada têm a perder, senão suas ora abastadas traças!



NB.: Favor acusar leitura deste texto na seção "Comentários".

Friday, June 15, 2007

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No caso, senhor (15/6/07): Nada se compara

Há 40 anos e uma semana os líderes de Israel tiveram a infeliz idéia de lançar a Guerra dos 6 dias, atacando de surpresa e derrotando sem dificuldade Síria, Jordânia e Egito apoiados ainda por Iraque, Quáite, Arábia Saudita e Argélia. O resultado estratégico foi a ocupação das colinas de Golam (Síria), da Cisjordânia (território palestino sob influência da Jordânia), da Faixa de Gaza e da Península do Sinai (Egito) e, politicamente, significou uma fragorosa humilhação dos líderes árabes e uma pá de cal no projeto pan-arabista. A justificativa para o ataque da parte israelense era a escalada da tensão militar com os vizinhos, que afinal já os tinham atacado em 1948 e muito provavelmente preparavam-se para futuras hostilidades. Não se trata aqui de tomar lados nessa pendenga, pois numa corrida armamentista ambos os lados se sentem genuinamente ameaçados. O que me interessa é o que Israel fez depois da guerra com os territórios ocupados.

Até os dias de hoje Israel mantém o controle militar dos territórios mencionados, muito além dos limites originais de sua criação segundo a resolução 181 da Assembléia Geral da ONU, que prevê dois estados na antiga Palestina de controle britânico, sendo o outro um Estado árabe mais ou menos do mesmo tamanho e com Jerusalém sob gestão internacional. Nesse período, manteve-se uma política incessante de assentamentos de colonos israelenses nos territórios invadidos, em violação do artigo 49 da 4a Convenção de Genebra, que traz inequivocamente em parágrafo inteiro:

"O Poder Ocupante não deportará ou transferirá parte de sua própria população civil para os territórios ocupados."

Nesse contexto, ainda que eu conceda ao argumento tático de que o controle militar da IDF (Forças de Defesa de Israel, é o nome auspicioso das forças armadas lá) nestes territórios é necessário à segurança dos cidadãos israelenses, continua difícil explicar que benefício a presença crescente de colonos na região poderia trazer, tanto à própria segurança, quanto à de seus concidadãos dentro do território legal do país. É impossível não reconhecer grupos de pressão nos altos escalões do governo que desejam uma ocupação total da Palestina, e essa a meu ver é a única forma de entender a política de criação de fatos consumados. Se estivéssemos falando de um pontinho obscuro do deserto de Negeev, ainda vá lá, mas de fato os assentamentos ocupam áreas estratégicas, detém recursos preciosos como terras aráveis e água e cortam a Cisjordânia com estradas que fragmentam o território. Seria espantoso se os habitantes da região não se revoltassem.

A ocupação israelense dos territórios capturados durante a Guerra dos 6 dias e sua política de assentamento eliminam completamente a credibilidade de seu comprometimento com o Plano de Partição de 1948, violam os direitos das populações palestinas não-israelenses e, com isso, expõem a própria população civil de Israel à insegurança causada pelo terrorismo. Curiosamente, alguns de meus amigos judeus parecem atribuir uma espécie de conotação moral aos atos do Estado de Israel, sem observar que, como qualquer outro país, Israel promove os interesses dos seus principais grupos de influência - não necessariamente os da maioria da população. Quem duvida que isso seja possível em um regime democrático, visite o Brasil, por exemplo. O povo da Palestina é vítima da política expansionista do Estado de Israel; o povo de Israel também.

Por fim, sempre se pode adocicar as consciências e alegar que, afinal, tudo isso não é nada se comparado à tragédia do Holocausto. Nessas horas realmente eu não tenho como discordar, mas posso cantarolar à melodia de Prince e Sinead O'Connor:

Nothing compares 2 the Holocaust

It's been several riots in six decades
since we took your land away
You have no whatever civil rights and no say
since we took your land away
since u been banned I can do whatever I want
I can arrest whoever I choose
I can eat my dinner in a fancy restaurant
but nothing
I said nothing can take away these hills,
'cos nothing compares
nothing compares 2 the Holocaust

it's been so lonely without u here
like a bird without a song
nothing can stop your lonely rocks from falling
tell me baby why don't you go home?
I could point my arms towards every boy I see
but they'd only remind me I'm wrong
I went thorugh my thoughts guess what they told me
guess what they told me
they said Israel u better take on guns
no matter what they do
'cause they hate you
'cos nothing compares
nothing compares 2 the Holocaust

all the olives that u planted mama
in the back yard
all died when you went away
I know that living with u baby was sometimes hard
but I'm unwilling to hear your mother cry
'cos nothing compares
nothing compares 2 the Holocaust

Friday, June 08, 2007

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No caso, senhor (8/6/2007): Medo do crocodilo

Era uma vez um menino voador que usava uma roupa idiota, mesmo para padrões vitorianos. Ele liderava despreocupado um bando de meninos com personalidades estereotípicas em brincadeiras e diversões sem fim, enquanto a coitada da Wendy ficava resignadamente arrumando os Legos de volta na caixa. Seu arqui-inimigo era um capitão pirata, que o detestava por sua contundente falta de modos e pela proeza de ter-lhe decepado a mão com uma espadinha de madeira. Na Terra do Nunca todos fugiam do crocodilo que tinha um despertador no estômago e, sobretudo, ninguém crescia.

O que sempre me incomodou em fábulas como a de Peter Pan (particularmente a versão Disney, cuja estréia internacional aliás foi no Brasil em 10/4/53) é a presunção de que o público infantil tenha algum tipo de fascinação pela idéia de ser criança pra sempre. Quem já foi criança deve saber que isso simplesmente não é verdade; a criança entende muito bem que está em um constante processo de crescimento e que parar de crescer efetivamente significaria deixar de ser criança, e, não, ser criança pra sempre. Trata-se é claro de mais uma projeção barata dos desejos nostálgicos dos adultos, mais ou menos como a mania de perguntar aos pequenos o querem ser quando crescerem, como se isso fizesse algum sentido pra eles àquela altura. Quem queria ser criança pra sempre, em geral, são os adultos.

A biologia sabiamente programou as crianças para não terem uma consciência moral plenamente estruturada, de forma a poderem receber sem se preocuparem com reciprocidade e, assim, assegurarem um superávit de recursos para o seu desenvolvimento. Quanto mais jovem a criança, mais ela percebe o mundo como fonte exclusiva de satisfação dos seus desejos e a sua principal relação com o mundo material e afetivo é o consumo... Mmm, Visconde, cheiro de pirlimpimpim (palavra impronunciável pelos personagens de Peter Pan, que são ingleses)... Talvez afinal a fórmula mágica da infância eterna não seja tão inacessível, pelo menos em nível simbólico (o único em que a mágica existe).

Nossa civilização descobriu o segredo de Peter Pan ao tornar logisticamente possível e socialmente aceitável reduzir todas as interações complexas da vida adulta a relações de consumo. Enchemos nossas casas, nossos corpos e nossos relacionamentos com coisas que nos agradam exponencialmente menos com o passar do tempo desde que os adquirimos. Obesidade virou epidemia porque continuamos comendo feito quando eu voltava da natação devorando qualquer quantidade de comida na casa (inclusive a do meu pai, se ficasse olhando pra tv por muito tempo). Acumular, poupar, empilhar (e desperdiçar) são padrões de comportamento normais - que nem quando eu tinha 4 anos e não quis entregar o ursinho que era pro menino aniversariante. Partilhar e desprender-se são, no mínimo, excentricidade.

Um habitante dos países ricos consome em média 30 vezes mais recursos naturais que o resto, apesar do metabolismo semelhante. Considerando que eles representam uns 600 milhões numa população de 6.5 bilhões e que deve subir para 9 bilhões até 2050, quem ainda sabe regra de três composta verá que, caso a promessa do capitalismo se concretize e todos tenhamos em 2050 um padrão de consumo comparável ao dos países ricos hoje, serão necessários no mínimo 10 vezes mais recursos naturais que os extraídos atualmente. No caso, senhor, não requer grande argúcia notar que a Terra não agüenta essa bagunça, por mais que a Wendy se esforce pra varrer tudo pra debaixo do tapete. O Haiti eu ainda estou em dúvida, mas a Terra do Nunca não é aqui.

Exceto pelo crocodilo. Tic-tac.

Friday, June 01, 2007

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No caso, senhor

Cansei de ficar mantendo esse blog como uma espécie de diário de viagens. Parafraseando Carla Peres, vou dar uma guinada de 360 graus neste projeto e fundi-lo a uma iniciativa maior: o glorioso blog de conteúdo e opinião No caso, senhor. Lá você encontra artigos novos todos os dias (o meu sai toda sexta), escritos por uma seleta casta de meliantes brasileiros no exílio:

- Renato "Nutella" de Paulo,
- Daniel "Chiquinho" Florêncio,
- Alexandre "Coritiba" Rubesam,
- Julieta "Embaixadora da Paz" Falavina,
- Ernesto "Gatmalotnere Maspaluluftiare" Herrmann (não posso fazer nada, foi ele que escolheu),
- Samantha "Debenhams" Dias Bruckhausen Herrmann (tinha que ser a mulher do cara),
- Ernesto "Menino Cauê" Llop,
- Colaboradores especiais,
- e EU!

Drible o seu patrão e acompanhe www.nocaso.org regularmente!

PS.: Quando tiver paciência vou postar aqui o meu artigo da semana e também, quem sabe, alguma novidade mais comezinha aqui das redondezas. Esse foi o meu artigo de abertura:

- x -

Big Me

(ou como não fazer nada sem sair de casa)

No futuro, quando as pessoas tiverem genomas modificados e forem metade-máquina por conta de implantes cibernéticos, eu não sei o que vai acontecer. No presente, contudo, os blogs estão na moda e este aqui é mais um que brota sem maiores explicações nessa rede mundial de solidões locais. Como garrafada inaugural parece-me boa idéia meta-blogar e tentar entender essa mania de auto-exposição em blogs, fotologs e outras sonoridades pastosas. De repente todo mundo passou a achar que tem alguém em algum lugar interessado no que se tem a dizer. Vale expor opiniões políticas, dicas profissionais, fotos de catorze adolescentes amontoados mostrando a língua no sábado passado ou, como era de se esperar, as próprias oscilações de humor e semelhantes mediocridades íntimas do cotidiano.

Claro que a Internet é um difusor fantástico de idéias, que aproxima as pessoas que têm computador através das fronteiras nacionais e que estamos muito melhor em termos de livre informação do que quando só dispúnhamos do telégrafo, do pombo-correio e da conversa com cafezinho. Só que, a meu ver, surge algo inteiramente novo quando cada vez mais gente, voluntariamente, decide expor sua vida pra quem quiser ver. No passado, temia-se um Big Brother totalitário fiscalizando a nossa privacidade; hoje, o indivíduo torna-se, orgulhoso, o seu próprio Big Me. E corajosamente! Tudo o que é exposto pode ser usado contra nós: perseguição política, seqüestro, fraude de cartão de crédito e golpes afins, intrigas afetivas e até, no pior dos casos, mal-olhado. Eu, por exemplo, poderia entrar em apuros com o desagradável professor Eduardo Siqueira, que me deu nota 7 injustamente na faculdade, sem nem me dar conta, só por causa de uma frase perdida em algum lugar de uma rede de dados varrida por dispositivos de busca automática.

Talvez um motivo menos óbvio para queimarmos todos os blogs em uma grande fogueira seja o de que nem todas as pessoas têm a capacidade de algumas amigas minhas de falar e ouvir (?) simultaneamente. O tempo que temos para navegar na Internet é finito (em geral, subtraído do patrão ou do sono), e é razoável supor que quanto mais eu passe escrevendo as baboseiras que só eu mesmo acho relevantes, menos sobrará para aprender com as dos outros. A partir de certo ponto há o risco de as trocas se tornarem cada vez mais superficiais e a coisa toda virar um grande experimento narcisista. Big Me is not watching you.

Dois mil e sete blogs denunciando o aquecimento global não salvarão o planeta, mas custarão o tempo de gente que poderia. Seis milhões de blogs defendendo os direitos dos palestinos não promoverão a paz no Oriente Médio ? enquanto você e eu, talvez, sim. É um progresso que em boa parte do mundo um bom número de pessoas possa expressar o que bem entende a baixo custo. Porém, se isso não se consolidar como um mecanismo de formação de redes de cidadania global e ação, continuaremos lamentado eternamente as mesmas mazelas da humanidade em textinhos metidos a esquerdista que mais visam a fomentar oportunidades de acasalamento.

Cá entre nós, não sei se você e eu seremos capazes de criar essas pontes. Quem sabe no futuro, quando as pessoas tiverem implantes cibernéticos.

Thursday, March 15, 2007

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De volta à vida

Reinauguro este Blog concluindo os relatos de minhas desventuras aeroportuárias no verão passado. O capítulo III (Berlim) já está lá, com fotos, e o IV está pra sair. Pra você ler, guardar e colecionar.
Fique de olho! (não que eu ache que você tira o olho pra dormir ou coisa do gênero, é só uma expressão.)