No caso, senhor (15/6/07): Nada se compara
Há 40 anos e uma semana os líderes de Israel tiveram a infeliz idéia de lançar a Guerra dos 6 dias, atacando de surpresa e derrotando sem dificuldade Síria, Jordânia e Egito apoiados ainda por Iraque, Quáite, Arábia Saudita e Argélia. O resultado estratégico foi a ocupação das colinas de Golam (Síria), da Cisjordânia (território palestino sob influência da Jordânia), da Faixa de Gaza e da Península do Sinai (Egito) e, politicamente, significou uma fragorosa humilhação dos líderes árabes e uma pá de cal no projeto pan-arabista. A justificativa para o ataque da parte israelense era a escalada da tensão militar com os vizinhos, que afinal já os tinham atacado em 1948 e muito provavelmente preparavam-se para futuras hostilidades. Não se trata aqui de tomar lados nessa pendenga, pois numa corrida armamentista ambos os lados se sentem genuinamente ameaçados. O que me interessa é o que Israel fez depois da guerra com os territórios ocupados.
Até os dias de hoje Israel mantém o controle militar dos territórios mencionados, muito além dos limites originais de sua criação segundo a resolução 181 da Assembléia Geral da ONU, que prevê dois estados na antiga Palestina de controle britânico, sendo o outro um Estado árabe mais ou menos do mesmo tamanho e com Jerusalém sob gestão internacional. Nesse período, manteve-se uma política incessante de assentamentos de colonos israelenses nos territórios invadidos, em violação do artigo 49 da 4a Convenção de Genebra, que traz inequivocamente em parágrafo inteiro:
"O Poder Ocupante não deportará ou transferirá parte de sua própria população civil para os territórios ocupados."
Nesse contexto, ainda que eu conceda ao argumento tático de que o controle militar da IDF (Forças de Defesa de Israel, é o nome auspicioso das forças armadas lá) nestes territórios é necessário à segurança dos cidadãos israelenses, continua difícil explicar que benefício a presença crescente de colonos na região poderia trazer, tanto à própria segurança, quanto à de seus concidadãos dentro do território legal do país. É impossível não reconhecer grupos de pressão nos altos escalões do governo que desejam uma ocupação total da Palestina,
e essa a meu ver é a única forma de entender a política de criação de fatos consumados. Se estivéssemos falando de um pontinho obscuro do deserto de Negeev, ainda vá lá, mas de fato os assentamentos ocupam áreas estratégicas, detém recursos preciosos como terras aráveis e água e cortam a Cisjordânia com estradas que fragmentam o território. Seria espantoso se os habitantes da região não se revoltassem.
A ocupação israelense dos territórios capturados durante a Guerra dos 6 dias e sua política de assentamento eliminam completamente a credibilidade de seu comprometimento com o Plano de Partição de 1948, violam os direitos das populações palestinas não-israelenses e, com isso, expõem a própria população civil de Israel à insegurança causada pelo terrorismo. Curiosamente, alguns de meus amigos judeus parecem atribuir uma espécie de conotação moral aos atos do Estado de Israel, sem observar que, como qualquer outro país, Israel promove os interesses dos seus principais grupos de influência - não necessariamente os da maioria da população. Quem duvida que isso seja possível em um regime democrático, visite o Brasil, por exemplo. O povo da Palestina é vítima da política expansionista do Estado de Israel; o povo de Israel também.
Por fim, sempre se pode adocicar as consciências e alegar que, afinal, tudo isso não é nada se comparado à tragédia do Holocausto. Nessas horas realmente eu não tenho como discordar, mas posso cantarolar à melodia de Prince e Sinead O'Connor:
Nothing compares 2 the Holocaust
It's been several riots in six decades
since we took your land away
You have no whatever civil rights and no say
since we took your land away
since u been banned I can do whatever I want
I can arrest whoever I choose
I can eat my dinner in a fancy restaurant
but nothing
I said nothing can take away these hills,
'cos nothing compares
nothing compares 2 the Holocaust
it's been so lonely without u here
like a bird without a song
nothing can stop your lonely rocks from falling
tell me baby why don't you go home?
I could point my arms towards every boy I see
but they'd only remind me I'm wrong
I went thorugh my thoughts guess what they told me
guess what they told me
they said Israel u better take on guns
no matter what they do
'cause they hate you
'cos nothing compares
nothing compares 2 the Holocaust
all the olives that u planted mama
in the back yard
all died when you went away
I know that living with u baby was sometimes hard
but I'm unwilling to hear your mother cry
'cos nothing compares
nothing compares 2 the Holocaust
Friday, June 15, 2007
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