Friday, June 08, 2007

No caso, senhor (8/6/2007): Medo do crocodilo

Era uma vez um menino voador que usava uma roupa idiota, mesmo para padrões vitorianos. Ele liderava despreocupado um bando de meninos com personalidades estereotípicas em brincadeiras e diversões sem fim, enquanto a coitada da Wendy ficava resignadamente arrumando os Legos de volta na caixa. Seu arqui-inimigo era um capitão pirata, que o detestava por sua contundente falta de modos e pela proeza de ter-lhe decepado a mão com uma espadinha de madeira. Na Terra do Nunca todos fugiam do crocodilo que tinha um despertador no estômago e, sobretudo, ninguém crescia.

O que sempre me incomodou em fábulas como a de Peter Pan (particularmente a versão Disney, cuja estréia internacional aliás foi no Brasil em 10/4/53) é a presunção de que o público infantil tenha algum tipo de fascinação pela idéia de ser criança pra sempre. Quem já foi criança deve saber que isso simplesmente não é verdade; a criança entende muito bem que está em um constante processo de crescimento e que parar de crescer efetivamente significaria deixar de ser criança, e, não, ser criança pra sempre. Trata-se é claro de mais uma projeção barata dos desejos nostálgicos dos adultos, mais ou menos como a mania de perguntar aos pequenos o querem ser quando crescerem, como se isso fizesse algum sentido pra eles àquela altura. Quem queria ser criança pra sempre, em geral, são os adultos.

A biologia sabiamente programou as crianças para não terem uma consciência moral plenamente estruturada, de forma a poderem receber sem se preocuparem com reciprocidade e, assim, assegurarem um superávit de recursos para o seu desenvolvimento. Quanto mais jovem a criança, mais ela percebe o mundo como fonte exclusiva de satisfação dos seus desejos e a sua principal relação com o mundo material e afetivo é o consumo... Mmm, Visconde, cheiro de pirlimpimpim (palavra impronunciável pelos personagens de Peter Pan, que são ingleses)... Talvez afinal a fórmula mágica da infância eterna não seja tão inacessível, pelo menos em nível simbólico (o único em que a mágica existe).

Nossa civilização descobriu o segredo de Peter Pan ao tornar logisticamente possível e socialmente aceitável reduzir todas as interações complexas da vida adulta a relações de consumo. Enchemos nossas casas, nossos corpos e nossos relacionamentos com coisas que nos agradam exponencialmente menos com o passar do tempo desde que os adquirimos. Obesidade virou epidemia porque continuamos comendo feito quando eu voltava da natação devorando qualquer quantidade de comida na casa (inclusive a do meu pai, se ficasse olhando pra tv por muito tempo). Acumular, poupar, empilhar (e desperdiçar) são padrões de comportamento normais - que nem quando eu tinha 4 anos e não quis entregar o ursinho que era pro menino aniversariante. Partilhar e desprender-se são, no mínimo, excentricidade.

Um habitante dos países ricos consome em média 30 vezes mais recursos naturais que o resto, apesar do metabolismo semelhante. Considerando que eles representam uns 600 milhões numa população de 6.5 bilhões e que deve subir para 9 bilhões até 2050, quem ainda sabe regra de três composta verá que, caso a promessa do capitalismo se concretize e todos tenhamos em 2050 um padrão de consumo comparável ao dos países ricos hoje, serão necessários no mínimo 10 vezes mais recursos naturais que os extraídos atualmente. No caso, senhor, não requer grande argúcia notar que a Terra não agüenta essa bagunça, por mais que a Wendy se esforce pra varrer tudo pra debaixo do tapete. O Haiti eu ainda estou em dúvida, mas a Terra do Nunca não é aqui.

Exceto pelo crocodilo. Tic-tac.

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